terça-feira, 5 de novembro de 2013

boneca (suspiro) mulher

Abram mão de seus pretos nos brancos. Homens brancos costumam amar os seus próprios arreios. Dejetos pisam os bancos da praça Roosevelt. Skates planam sobre minha cabeça e destroçam meu próprio firmamento. Enquanto passam a vontade e o tempo, flameja a lágrima que não sai - nem com reza ou milho nos joelhos.

Chegamos então ao choro contido de Isadora, a menina que estava aqui nessa sala de bar, agora há pouco, Isadora, a que só veste saias de babados cor de rosa, curtíssimas, e equilibra-se nos saltos altos de scarpins escapistas.

Para ela, é duro encarar a realidade de alguém que não nascera boneca. “Saltos muito altos para não pisar o chão”, dizia, em parte corada pelos blushes Avon, em outra, pela incapacidade de ter solas dos pés minimamente realistas. Nas pick ups, tocava Luscious Jackson, eu olhava para a boca de Isadora enquanto ela executava a dança dos lábios superior e inferior, céu e inferno, ar e lama, sol, mar, gloss vagabundinho de sabor duvidoso, metade morango, metade melancia, de abrir no meio para melecar com as pontas dos dedos.

Como não a ouvia, a imaginei dizendo algo como “não se esforce a fim de iluminar aquilo que já tem vários holofotes sobre si. Descubra os pequenos pontos de luz a serem desvelados, descobertos, agraciados pelos olhos do criador, mesmo que Este seja você mesmo”. Eu procurei um sentido para aquilo tudo que imaginei ela me dizer quando aquelas bonecas ali [na prateleira] passaram a irradiar as vozes de suas almas plásticas, não apenas luzes rosadas. Como se essa sala estivesse inundada por chamas. 

Isadora, com olhos rubros, levantou-se, oferecendo pra mim apenas um dos pares do sapato de salto alto. Seria essa uma meia libertação desejada, vontade de sentir um pedaço da realidade, uma parcela de revelação motivada pela decoração subjetiva deste bar? Ela desceu essas escadas, mancando vagarosamente, sentindo-se meio kitsch, degrau por degrau, e saiu, caminhando pelo meio da praça. Meninos voavam em todas as direções, entre cacetetes da guarda civil e luzes de rodoviária. Até que o vento levantou a saia de babados cor de rosa, algo que foi visto apenas por um homem que exalava espirais brancas pelo nariz e pelo vendedor de sementes aquecidas em um carrinho iluminado. 

Uma criança fora de hora e fora de lugar caiu e gritou fino, agudíssimo. Na hora, pensei em um pássaro. E na floresta que habita a cidade, embora tenhamos dela somente um esboço feito a lápis, em papel pardo.

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