quinta-feira, 31 de outubro de 2013

quando assisti Park Chan-Wook

na fileira de trás, uma menina começou a chorar compulsivamente. recebeu a mensagem de que a avó tinha acabado de morrer. teve de ser levada às pressas do Teatro Faap, um pouco antes do cineasta coerano Park Chan-Wook começar a falar para uma plateia de estudantes de cinema, em sua maioria. Park Chan-Wook seria mediado por Rubens Ewald Filho, havia também um tradutor e uma cineasta igualmente coreana que, em instante algum, proferiu palavra. momentos antes, na fila que se espalhava pelas escadarias, eu, Lucas Valadares e Kamilla Vulcão conversamos sobre Zé Celso, “Cacilda” (que assisti com as atuações de Bete Coelho e Renée Gumiel) e o episódio em que levei um tombo durante um espetáculo do Teatro da Vertigem. falamos também sobre o bebê abortado no banheiro de uma lanchonete de uma grande corporação norte-americana de controle mundial, pernas de sapo encontradas em saladas terceirizadas e grandes escândalos envolvendo bonecos-brinde. todas elas histórias verídicas. quando no interior do Teatro Faap, evento com o  diretor já começado, a dinâmica “fala em português – tradução – fala em coreano – traduz para o português – comenta” não beneficiou em nada meu TDHA em estado embrionário, que já se encarregou de criar várias imagens, desenhos formados por caracteres orientais em movimento, espremidos entre os dois banners verticais que foram pendurados nos cantos do palco (eles contêm a sigla FAAP em degradée, de um azul mais forte até chegar ao branco total). algumas imagens coincidiram com aquilo que havia sido falado, descobri depois, com a tradução. minha viagem imaginada foi interrompida pela projeção de uma cena de um dos filmes de Park, em que um rapaz mudo, de cabelo verde e blusa adidas grená morre em um rio, após ter os dois calcanhares cortados de maneira brutal. o responsável pelo ato foi o pai vingativo de uma menina, também assassinada naquele mesmo rio e por aquele mesmo rapaz. aplausos, mais falas, caracteres de origem coreana, cenas. cerca de 1h30 antes, o aluno X (sigla fictícia), da minha sala, furtou uma trufa da turma do MBA (apenas estudantes do MBA têm direito a elas). nós, os restantes, tivemos de nos contentar com aquilo que é servido normalmente, tristes. no auditório, 1h30 depois, assisti cenas incríveis dos filmes de Park. soube até da refilmagem de Spike Lee e do fato dos dois diretores não terem se cruzado. até que deu meu horário, levantei e saí do teatro com o esmalte azul lascado por mim mesma, a fim de facilitar sua remoção posterior.

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