sexta-feira, 15 de novembro de 2013

ordem X

Era de rituais e mitos que elas viviam. Os recriavam, os compunham, incluindo e desconstruindo personagens de jornadas virtuosas sem a vergonha de serem autoras suficientemente despreparadas para o negócio. Recitavam suas estórias em descompasso, para ninguém prestar atenção. Seus giros e circumambulações eram purificados com a água de córregos super habitadas por ovas de pequenos insetos, que acreditava-se possuírem propriedades reconciliadoras quando grudavam nos fios de cabelo, formando coroas visíveis apenas telescopicamente. Coroas absolutamente necessárias. As brigas eram frequentes e sempre aconteciam assim que o círculo era desfeito.

Não era para menos, a composição de braços, pernas e cabeças não podia ser mais desconjuntada, eram tantos os membros que subiam e desciam ao som de kalimbas e de um xilofone de brinquedo. Seus pensamentos também não adornavam ideias em comum, eram dotadas de uma consciência infantil, dada a criar cenários fantásticos de vestidos longos e transparentes, perfumados com incenso de patchouli (pogostemon cablim). Adorariam ter um tambor, mas as moedas que angariavam não davam nem para bancar alguns parafusos. De fato, dinheiro era o que menos havia por ali, apenas sêmen seco, excrementos de andorinhas e folhas em abundância. As amoras colhidas em ramos baixinhos tingiam suas unhas, mas serviam como alimento. E tingiam seus corpos, igualmente, por dentro.

Com uma receita que levava manteiga, cardamomo, cerveja, uma gota de aguarrás, mel e sódio era possível preparar uma espécie de refeição ritualística com as mesmas amoras, que, depois de tantas luas viradas, elas não supunham mais conhecer o sabor – o que, para um estranho que por acaso passasse por ali, poderia parecer até interessante. Esse homem se esconderia atrás de alguns galhos, observando-as com os olhos quase cerrados, até que a celebração acabasse e o alimento da confraternização fosse finalmente liberado. Nesse meio tempo, as mulheres realizariam a dança das estações, simulariam a morte e o renascimento com gestos exagerados, e dançariam a Euforia até o alcance da contração final. Duas delas cairiam no chão, esmaecidas, corpos em formato de X, circundadas pelas irmãs de sua ordem.
 





 

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