quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

febre das manhãs

Soprava fino pelos lábios, como se emitisse uma sinfonia de oito mil rompantes. E suava, em mangas de camisa de suéter. Permanecia no baixio esquerdo de seu rio. Seu oráculo preferido eram as rotas feitas pelos pés que estavam debaixo da mesa em que se encontrava. Naquele território escurecido de tecidos descortinados, havia esquinas, resíduos, bitucas, desencontros, relações sexuais do início ao fim, furacões: um underworld daquele piano-bar.
 
Como no dia em que a moça de vestido de cetim e corte de cabelo extremamente Loulou (seja lá o que isso quer dizer, mas que poderia ser facilmente interpretado como uma das versões do clássico Chanel) rasgou o ambiente de lado a lado, ela, um feixe de fúria, para atirar uma taça de Kir Royal no rosto de um certo cara - o piano tagarelava numa trilha sonora conveniente. O gesto dela doeu como sangue rasteiro sobre a camisa do rapaz, e os caquinhos da taça estilhaçada (caso pudessem ser vistos em câmera lenta e a olho nu) executaram uma espécie de dança no ar, formando um mosaico-móvel em suspensão, um móbile das profundezas marítimas e malemolentes.
 
O rosto da moça de cabelos Loulou foi refletido, mínimo, em um dos caquinhos: das belezas e mistérios da vida que o mundo não vê. E que os homens, conscientes disso, usam como motivo para se jogarem ainda mais fundo em piscinas flamejantes de pólvora pasteurizada. Mas Jonas já sabia de tudo, antes mesmo desse tudo acontecer. Sabia o que os unia e o que os separava, e a razão do sangue ter se livrado do oculto de artérias e veias.

Sua capacidade de prever acontecimentos chegava a assustá-lo. Isso sem contar na crença de poder gerar fatos e coisas de acordo com a sua vontade. Tudo começou em um amanhecer de anos atrás, quando Jonas constituiu uma faixa alaranjada de nuvem e luz no firmamento, a faixa cruzava o céu de leste a oeste, ela podia ser vista por entre as persianas. Foi em uma questão de segundos, apenas porque ele imaginou serem essa faixa e essa tonalidade ideais para dar nova vida para o seu céu particular, que, até momentos antes, estava nu. Por essa razão, sua mãe, única testemunha viva e ocular do fenômeno, costumava chamá-lo de "garoto da aurora" ou "febre das manhãs".
 
Foi então que ali, naquela noite, no piano-bar, seu coração havia estacionado, de tão rápido. Mas tudo não passava de um estímulo regido pelas baquetas percutidas, anunciando que em instantes subiria ao palco a mulher com voz de cristal e o carisma de um tigre da Guiné. Jonas havia pressentido que algo especial, de único e indescritível iria acontecer naquela noite, com aquela mulher, exatamente. Agarrou o trompete, era chegada a hora de ditar ao público os resultados de suas visões. Soprou fino pelos lábios aos olhos sugadores de uma plateia descrente.            
    

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