terça-feira, 25 de março de 2014

3 X 12 (baseado em uma obra de Gregory Crewdson)

O problema todo é que eram doze passos, ou melhor, doze degraus – pelo menos até onde eu supunha ou minha visão conseguia alcançar – para apenas três. Três elementos ou pessoas em jogo, que, de tão díspares, geraram impactos de maior ou menor dor à minha vida. Em relação a doze aspectos de uma existência doméstica, a contar: (1) refeições, (2) acomodações, (3) lazer, (4) facilidades, (5) convívio íntimo, (6) soldas e encanamentos, (7) louças, esquadrias e metais, (8) sono e vigília, (9) sótão e porão, (10) coração, (11) vísceras, (12) meu rosário de madeira.
 
Eu, como quarto e indesejado elemento, a transitar nas pontas dos pés por universos em retração, a orquestrar sem auxílio de escala ou batuta todas as mentes e as mortes que vivem em um homem velho – me ponho a pensar no que cabelos brancos são capazes de roubar e de atribuir a uma pessoa; de uma menina que diziam luvem ao invés de nuvem e não desgarrava de um ursinho azul cobalto, feito de látex (ele se punha a gritar ‘me dá um beijo?’ sempre que apertávamos sua barriguinha); de uma adolescente que negava as próprias ondas e alisava-se progressivamente, propagada nas redes em selfies sem fim.
Naquele dia, decidi dar vazão. Do banheiro à banheira, da pia ao tanque, do bidê aos chuveiros, deixei que jorrassem livres, em seu vocabulário de correnteza destrambelhada, todas as águas, todas as armas, violei as comportas, himens, lajotas espelhadas, carpetes pagos em parcelas, estofados de chenille, banquetas, boquetes, bocadas, racks de mogno que guardam blue-rays de blockbusters e de best-sellers, até minha combinação de calcinha, sutiã e anágua.

Eram seis horas da tarde. Em breve, um deles chegaria da escola, da faculdade, do trabalho. E abriria a porta da frente, atraído pelo olfato para um jantar que naquele dia, excepcionalmente, não seria servido.

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