quarta-feira, 19 de março de 2014

toque

Era carótida. Partidária de causas. Odiava partidos que suspendem alicerces com arroubos. Causadores de rombos na inconsistência das massas. Naquele momento, eram muitos os regimentos sem orquestra que avançavam sobre construtos acadêmicos. E que falavam língua nenhuma. E que ofertavam mais horas a quaresmas ainda ausentes nos calendários católicos. Eram quimeras rápidas e sonoras as das avenidas. Durante a passeata, sentiu um sono de fazer pender as pálpebras. Ouviu sinos tibetanos em mosteiros reluzentes. Adjacentes a jardins de morangos silvestres. Amores silvestres pipocavam aqui e ali, tremelicantes à luz da sombra das árvores. Vítimas de uma digitação que não parecia ter fim. Afinal, era escritora e desejava agitar. Confabular as fábulas com suas comadres celestinas. De vestes nada santas às mesas de café com leite e torradas – eram visíveis os bordadinhos de sutiãs Du Loren.

Foi aí que descobriu que não havia tomada para carregar o carregador. O café em que estavam escorregara no tomate ao não oferecer essa comodidade aos clientes. Além de uma conexão Wi-Fi vagabunda, com uma senha escrita a mão em um papel pregado na parede. Ela respirou fundo e tentou concentrar-se na conversa. E voltou a ser o centro da mesa. Sabia de tudo o que ocorria na paróquia, mais do que o frade. Como aquele, da caixa, o famoso. Mas que perde para o Lindt. Burra, lembrou do Bergman, que ela não sabe que não é belga. Foi daí que tudo ficou em preto e branco, e com excelente fotografia. De repente, ela andava em uma praia de pedregulhos e descobriu-se loira. De nariz arrebitado e coque. Depois, estava flutuante em uma banheira dos anos 50. Do lado de fora do vitrô basculante do banheiro, miava um gato preto e branco.

O telefone tocou. Ouviu sons da ribalta, viu luzes citadinas percorrerem a superfície acetinada de suas botas deixadas em modo de espera sobre o tapetinho. Havia fogo branco e preto entre os lençóis que a aguardavam. O telefone tocou. As ondas do mar de pedregulhos avançavam sobre a costa, um tsunami estava por vir e sua companheira resolveu conversar bem no meio da ventania sobre tarô e especiarias. Ela parecia não se tocar da catástrofe iminente. O telefone tocou. Brenda (esse era o nome dela) estava novamente na praia e corria em direção à casa da colina, mas havia esquecido um lenço Hermès que comprou no brechó da Augusta por 500 reais e resolveu voltar. O telefone tocou. Ela corria em direção ao lenço, embora achasse isso um absurdo. [Isso o que? Correr atrás do lenço durante um tsunami. E pagar 500 reais por um lenço]. Foi envolvida pelas águas, que a lançaram em uma maré de líquidos não-identificáveis. Trim-trim. Não sabia se era a água que invadia os seus ouvidos ou se era alguém extremamente inconveniente, que não cansava de insistir e de chamar. Antes de dizer alô, tocou-se. Antes de acordar, emitiu um suspiro feliz por ter conseguido agarrar o lenço bem pela pontinha.
 

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