domingo, 20 de abril de 2014

devota

Donatinha lavava, secava e fechava os potes plásticos, enfileirados no armário de inox de portas fechadas, um tipo de coração desconhecido, rosqueado, mas que bate, essa era a verdade por trás de todos aqueles potes, Donatinha dona de vários corações enfileirados, Donatinha não tinha paz, passou a bainha da toalha em uma suspensão indesejada de ponto mal arrematado, seus sentimentos eram insistentes assim, Donatinha pressionava o ferro sobre a bainha de fio Guanabara cor verde abacate, 70% algodão, 30% poliéster, tudo ficou ainda mais quente, para alisar, dar um jeito no que era rebelde, mas nada, gemas quentes se prestaram a aquecer os vãos entre os vales de náilon azul marinho, o vulcão Orokomoko entrou em trabalho de erupção, lá, o local que ninguém ousava pisar, o cheiro de enxofre vinha da frigideira com óleo fervente e invadiu o corredor, o telefone na mesinha ao lado era de discar com o dedo, e de trazer as vozes dos tempos, por isso o apego a este mesmo aparelho, Donatinha surtou com o trim, largou o ferro quente para se dar ao luxo de ferver, uma sorte de sons em coxas meias, mas estava mudo, o fone, ajoelhada rosa em devoção de pólvora, até o mais alto, a fivela do sapato lustre fechada enquanto abria-se, para o criador, a criatura, Donatinha proferia vocábulos desconhecidos das línguas (são várias) que legitimam fêmeas em estado genuíno de sorte, protuberante é o vulcão, breve é a morte, faladora é a menina, deslizavam, sequenciais, as contas do terço em rios de graças percorridas, digitadas analogicamente em cinco minutos e catorze segundos, os números escritos por Donatinha com canetas de cor e perfumes de frutas no caderno de orações e de números que mais pareciam cálculos aos olhos desconhecidos do mundo.       

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