sexta-feira, 4 de abril de 2014

no casarão

Estava úmido e quente aqui dentro. Mais precisamente, encharcado. Hoje, eu tive um tempo de maré cheia. E subi certos degraus internos até chegar ao meu pensamento. Foi quando ouvi as palavras que você queria dizer. E, descabida, imaginei repostas. Louca, fui para a janela da casa, a vista dava para uma palmeira imperial; ao lado, um edifício com luz caramelada na recepção. A água caia do céu em pontilhados finos, empoçava o asfalto com as oscilações das luzes dos faróis. Multiplicadas e verdes, às vezes, entre sóis amarelos e pequenos que surgiam, desapareciam, surgiam, desapareciam.
 
É impossível viver com um metade arrancada de mim: afinal, não há como estabelecer limites para os oceanos. Eu não acabo ali, você não começa em si. Somos uma sinfonia de compassos irregulares, seguimos em uma incoerência mútua e polarizada. Não nos condensamos em linhas retas, só valemos alguma coisa quando na exaustão ou nas alturas. Saí da casa. Na trajetória contida em quatro dezenas de passos entre a escadaria e o jardim, acreditei, de verdade, na vida. Tudo pela beleza de um amor que me esperava ali, no portão, e bem debaixo da noite.
 

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