sábado, 7 de junho de 2014

pré-embolização

A pintura degradê em suas unhas quase secas repercutia, de alguma forma, nos seus sentimentos. Saiu morna do salão, com aroma de secador-capacete, que faz a gente parecer um astronauta de bobes, as ideias ventadas em potência máxima. Na caminhada de regresso, entre a Sé e o Paissandú, parou pra ouvir o cordeiro de deus gritar profecias, rodeado por balões humanos, todos de peitolas estufadas, prestes a serem explodidos por uma agulha. Eram frágeis em suas naturezas esticadas, por isso, ouviam, queriam conferir as palavras do mensageiro. Afinal, balões sobem aos céus, mas não chegam a deus. Nem com todo o gás do mundo. Um adesivo móvel, uma gracinha, um sticker, eles só quebram a monotonia de azul e branco, azul e branco, às vezes magenta, laranja, violeta, dourado, cinza, cinza-chumbo, preto. Pensando bem, o céu nem é tão monótono assim. Mas os balões queriam um sentido. Ser decorativo não basta, isso é algo que não casa com os propósitos divinos.


Resolveu passear pelo centro velho. Com os gritos do profeta às suas costas, pensou no destino do que não mais carregaria em si: seis miomas uterinos, com extensão e massa corpórea entre cinco e sete centímetros, seus bebês não gerados no amor, seis bebês inversos, suas aberrações, seus balões. Em uma semana, passaria pelo procedimento médico ideal: micro partículas esféricas inseridas em uma artéria secariam a fonte de alimentação desses seus meninos. Ela jamais veria as suas caras, ela não queria ver as suas caras, estava livre para realizar esse aborto dos bons, aceito, e na correção, quase divino, posto que científico, obra de médicos reconhecidos nos estados unidos. Morreriam os miomas, secos eles, internos, inertes fantasmas, e, especialmente, mudos. Melhor assim.

No momento certo, os expulsaria de seu corpo para fazer um colar, feito os crânios ao redor do pescoço de Kali, aí sim, eles fariam algum sentido. Parou em frente a uma vitrine espelhada, ajeitou o cinturão de penduricalhos. Botou a língua vermelha pra fora - algo que, na loucura das seis horas de uma sexta-feira, infelizmente ninguém viu. Recompôs-se, ajeitou os fios de cabelo, os cachos estavam ainda duros de laquê. 

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