sexta-feira, 18 de julho de 2014

mermaid

Você bateu no oceano até que eu sentisse suas ondas repercutirem na orla. Eu vivia nas minhas bordas há tempos já, e pulei na várzea, vazei pelas escadas submersas, emiti frases de efeito bombástico nos trilhos eletrizantes da atmosfera curvilínea que nos cercava. Sabia da lua e de cavalos marinhos, tinha uma pickup embutida no cerebelo, aquele clipe dos Chemical Brothers, “TheTest”, era transmitindo em looping por toda a eternidade na minha membrana óptica interior, também conhecida como “tela de cinema”. Nas páginas flutuantes, em Calvino, morreram estórias inacabadas que eu chamava de literatura, em outras delas, mosaicozinhos de Faulkner, em algumas mais, com as letras bem borradas, divagações de Woolf – aí restavam os plebeus subaquáticos, unidos na tentativa de juntar caquinhos de palavras. 

Tudo era um cenário produtivo, de bolsas a tiracolo, barbas recheadas com flores primaveris, camisas xadrezes e eventos nos quais eram servidas taças de vinho meia boca - respectivas às meias palavras que igualmente completavam as bandejas como iguarias (nessas ocasiões, predominam os gestos daqueles que fingem não terem visto e, contraditoriamente, emanam vibrações de reconhecimento para a pessoa ignorada. Ela percebe tudo e, por sua vez, faz de conta que não é com ela). Então, servem ainda mais taças do vinho de má qualidade que proporciona a chapação generalizada. À meia noite, eu neste ambiente apenas queria captar ondinas frescas para jantar, lançar algas moles em algumas águas, regar jardins e areias desconhecidas, dar uns goles nelas, tudo isso para saber se, de fato, deveria lançar um livro em versão digital, astral ou impressa. 

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