quarta-feira, 2 de julho de 2014

quarto 106

Ele arrulhou um som sem sentido, ajustou as asas que por sua vez emitiram um ruído leve, de página de papel que se esfrega em outra página, mas para o qual ainda não foi dado nome ou originado verbo. Nas garras desse pombo havia deformidades, ó céus, grandes grânulos que o impediam de andar de maneira ajustada, ele já em sua existência de coisa criada mas desgarrada da vida, isolado da ordem do universo, um pombo que ocupa calçadas e praças de cidades, deixando-as mais cinzas, arrulhando nossos passos, que, tal como pombo e  legítimo, ele tem o grande prazer de interromper.

Passei pela portaria do hotel no qual dormiria naquela noite, um sofá de homens em pencas com notebooks no colo, outros de chinelo e shorts portando latas de Skol, todos com olhares de perseguir passos e de acompanhar mulheres desacompanhadas.   

Ao final de um corredor ficava o elevador sinistro do hotel. Para uma moça só e desinteressada, elevadores de hotéis cheios de homens sentados em sofás são sempre sinistros, sobretudo se eles são velhos – os elevadores, os sofás e os homens.

Eu portava batatas aromatizadas, azeite e ervas, não me lembro muito bem, além de sucos, bolos, doces, um cartão de débito / crédito no fundo do bolso, um medo no fundo das calças, vinda da rua da loja de conveniências, única na vizinhança lúgubre-tropical de Paraty. Enquanto eu ainda estava na calçada, um carro de homens gritou vem cá gostosa!, andei mais depressa enquanto repassava mentalmente peça por peça que vestia naquela noite, sem achar um sentido para o gostosa que lançaram na minha direção, subi os degraus para a decepção.  



Com dificuldade, encontrei a porta do meu quarto, não havia placa, já tinha ficado puta porque me obrigaram a pagar a diária logo na entrada, corri riscos no caixa rápido por causa de cinquenta reais que faltaram na carteira, mas aí apertei a vista e vi a marcação a lápis, número 106, girei a chave, abriu.

Na cama, sacolas plásticas e chapéu com furinhos e abas largas, revistinha e mapa, disputei um espaço, comer era uma necessidade, rasguei os pacotes, os itens salgados fizeram as honras, e estavam maravilhosos de se comer e de se mastigar, mas entre um som e outro ouvi algo que de início parecia ser um gemido.

A TV seria providencial naquele momento, já que a possibilidade de ingerir o que quer que seja e ouvir o arrulhar de um pombo é inexistente. Um apresentador de domingo e peitola estufada apareceu na tela, foi um correr de dedos para mudar a imagem, estancar a desgraça, aplacar o karma. Novos vibratos. Atendi ao celular na frequência do desengano. Era muito hormônio feminino para muita conversa via dispositivo tecnológico, a natureza implacável e furiosa, ai de quem pretende enfrentá-la, desafiá-la com suas invencionices de homenzinho moderno empertigado apertado nos fundos e de alma comerciária.

As comportas do desassossego foram abertas, Paraty invadida por ondas gigantes, não havia mais museu histórico ou igrejinha, barca de travessia, areia fofa, cartazes da copa que ainda estava por vir, céu azul, nuvem branca e sol com carinha smile, beleza pura, S transformado em X. Desligamos, desligadas.

Só me restou um banho no alívio do instante, a inundação vinda de cima que eu tanto queria. Do lado de fora do vitrô do banheiro, um ajuste de asas emitiu o ruído leve, de página de papel que se esfrega em outra página. No vidro, o pombo deixou suas marcas da desordem, uma aquarela fisiológica nas cores verde, branco, preto, cinza, com um toque de azul.

Nenhum comentário:

Postar um comentário