terça-feira, 5 de agosto de 2014

dinheiro de graça

Para ele, os subterrâneos eram especialmente desagradáveis. Sobre sua cabeça, quanto maior era a massa concreta suspensa, maior era a pressão interior, no crânio um martírio de aço e toneladas de cimento e passos. Um ir e vir de todos os andares sobrepostos que repercutia dentro. Ele também ia e voltava como um corpo médio levado pelo vaivém das ondas, sem que isso fosse a expressão livre de sua vontade em decomposição. Em tal estado, estava resumido a um esboço, e era só e isso.  

Cansado de ser para-raios de malucos e de pernilongos, cabulou uma aula da pós esticando-se na cadeira de um auditório neotropical situado no subsolo 3 do edifício, a jaqueta estendida sobre os braços que ansiavam por um ar fresco, já picados pelos supracitados insetos. Ouvia o moço no púlpito falar ao microfone, ele dizia que no jornalismo atual muita gente trabalha em regime de colaboração além-mar, o que importa é a interação global e interconectada, as pessoas não querem dinheiro de graça.

Uma outra moça mais à esquerda, da zona das cadeiras e passivonas, fez uma pergunta em linguajar acadêmico ininteligente, causou alguns risos vertentes, o cara do microfone assoou o nariz umas milhares de vezes, ganhava tempo ao esvair-se em cada lenço que compunha seu Everest particular sobre a bancada de debates. As respostas, afluentes de rios que escapavam de suas narinas, o extrato fino de seu cérebro vazante.

Líquen – esse era o nome do rapaz na plateia ­– lembrou-se da fala de um geólogo, as montanhas e os planetas eram feitos da mesma substância e, naquela semana, ia rolar uma chuva de estrelas. Um mar de magnitude cósmica choveria na inversão sobre nossas cabeças, mar, céu, rio, montanha, onda, corpo.

No auditório, debateu-se sobre a negritude na imprensa, a falta de oportunidades, o regime escravocrata das redações e a juniorização das mesmas. Os participantes inflamados, eram todos fogos acesos sobre as poltronas almofadadas. Mocinha brigou com a velhona estúpida. Bobão rechaçou o boy. Lançavam-se opiniões, raios, tempestades.


De repente, um estrondo súbito, gritinhos de ai que susto.  Uma voz se fez ouvir. Mais alto. Nada de deus ou profeta, mas de um alto falante que Líquen não sabia existir ali. Silêncio geral para ouvir a mensagem sobre o inevitável e exato: era preciso evacuar o prédio, o alarma era verdadeiro, envolvida pela chuva de estrelas dirigia-se à Terra uma massa estelar de grandes proporções, estava muito muito próxima, como na cena final do filme Melancolia, de Lars von Trier.

Mas do que adiantava correr com a certeza de que Líquen viraria pó e se uniria às estrelas em chuva morta e pré-diagnosticada, passaria de um estado a outro por ordem de uma calamidade. Todos com mãos nas bolsas, celular, foram dois minutos de desorientação enquanto ouvia-se um zunido no ar, as luzes se apagaram, acenderam as de emergência, tremelicantes imitadoras das estrelas que se aproximavam e envolviam a massa compacta que se chocaria ao planeta em instantes.

Houve correria, o palestrante deu uma última assoada, talvez na tentativa de lembrar-se água antes de virar pó. Ele provavelmente não estava preparado para uma mudança assim tão repentina, um mundo que não mais existiria, muito menos jornalismo, revista, jornal e dinheiro de graça. Espasmódicas, as mulheres falavam onduladas, uns rapazes batiam-se as mãos naquele estampido de palma contra palma em formato de concha que só os homens sabem fazer quando aos cumprimentos, valeu cara!, passos iam e vinham, foram-se embora um a um, até o silenciar do último. 

Sobraram Líquen, as cadeiras e o Everest erigido pelo palestrante, que não mais poderiam ser identificados como uma coisa ou outra ou outra, já que agora estavam unos na escuridão. Líquen permaneceu flutuante, alheio à gravidade no auditório subterrâneo. A massa compacta acima de sua cabeça o acompanharia para todo o sempre; isso, de longa data, ele já sabia. 


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