sábado, 20 de setembro de 2014

pan

Foi o pinho oco que me deu a vida. E me levou a vocês. A meia calça de nylon é um disfarce de modernidade. Tenho a flauta oca. A fala da árvore. Piso em seda e capim. Rondo casaizinhos meigos. Estimulo grutas a emitirem sons. Suas opiniões são inaudíveis, mas não para os meus ouvidos, humanos. Emito notas musicais que as imitam. A voz da Terra é autoritária. Nada materna. Vocês atribuem doçura e maternidade a tudo. 



Nada precisa ser bonito. Basta ser nada. Nada precisa ter seios e formas arredondadas. Vocês bebem leite como um símbolo de pureza. Recorrem aos jardins para ter paz. Mas estão sentados sobre insetos, esmagando-os, aos milhares. Seus pés desenham trilhas de sangue. Vísceras coladas às suas solas e tecidos. Trocam carinhos enquanto dizimam espécies. Dezenas de variedades de plantas e de seres foram extintos por causa de seus passeios no parque. De seus beijinhos de mel e piqueniques. Vocês são os mensageiros da morte. Vocês têm medo da morte. Vocês são absurdos. Raptem-me, antes que eu os torne répteis.            

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