sexta-feira, 5 de setembro de 2014

sem fio

Contei para um amigo: hoje à tarde comprei um pacote de biscoito de polvo. Biscoito de povo, foi o que ele entendeu. Ao saber disso, um outro amigo, artista, já imaginou uma mostra de bolachas cream cracker em tamanho de pessoa, silhuetas humanas. Os visitantes da expo morderiam essas bolachas, sobrariam só farelos. Lembrei de Giovanna, um farelo em forma de pessoa. Quando chegava ao escritório, por conta do topiratamo para depressão, demorava séculos para engatar no trabalho, no raciocínio, enrolava no trabalho e na linguagem. Se achava muito parecida com a Nicole Kidman, mas estava mais para sombra. Regismundo, outro colega, era sombra igualmente, o açougueiro de formação que sonhava em ser músico frustrado. Aí fazia intrigas, aí empanturrava a barriga, comia de raiva e de amores embutidos. Batia na lata, como se percute bateria. Igualmente empanturrado era Frederico, o vegetariano que detestava vegetais. Mandava ver nos queijos, cremes e pães, bolos e massas, pastas, purês. Não comia carnes para entupir as próprias artérias, uma coisa meio Jesus Cristo que não faz ideia que é Jesus - o que é muito pior, já que, neste caso, é um sacrifício totalmente sem noção. Me contou que tentava pegar todas as mulheres pois, quando era jovem, passou por uma grande rejeição. Há! 




Elisabete terceira, que um dia foi minha chefe, era a grande punheteira e não pegava nada. Oficialmente, sofria de lúpus, mas seu mal mesmo era ser um reservatório de esporros de policiais. Sua filha adolescente era rebelde e corneava a mãe a três por quatro, toda putinha, bendita, um sarro, só. Elisabete queria que eu fosse sua filha. Sefu. A irmã era lésbica sem saber que era, andava macha, dura, e reproduziu com varão só para reproduzir - e porque a sociedade cobra, sabe como é. Mas sonhava com ninfas. A se! Cobrada. O metal god da ex-amiga casou-se por rebeldia, para ele, a união matrimonial em palco sacro é um ato de subversão, especialmente para adoradores do demo. Ele fez tudo conforme mandaram, mas, no dia, ostentou o anel de caveirinha no dedinho para não se esquecer do mestre. Mas mestre mesmo era o cara que chegava e não olhava pra ninguém, sonhava com discos voadores e era adorador da Apple, executava, do Yes, solos sem fim e sonhava em conhecer uma dançarina do ventre, que executasse, ao seu lado, as mesmas ondulações estomacais às quais ele se dedicava a praticar, todas as noites. Eu até que tentei fazer uma aula de dança do ventre, mas a professora encanou com um papo de homem da capa preta que a acompanhava e disse que sempre que eu quisesse me daria carona. Pediu meu telefone. 

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