quinta-feira, 16 de outubro de 2014

veludo banana

Essa semana, me despedi da minha calça de veludo verde como quem se despe de florestas escuras. Depois de meses, a peça coringa ficou puída ao se adaptar aos efeitos sanfona do meu corpo; em ciclos intercalados de sucos livres, vegetais, grelhas ou esbórnia, ela se ajustou a mim generosamente, apaixonadamente. Ela não era só uma calça, mas uma segunda alma sobreposta à que eu já visto todo dia. Os riscos verticais do seu veludo talvez explicassem o que era ter em mim céu e terra, Deus e pecador, a síntese da comunicação democrática entre chão de fábrica e presidência, entre ricos e amargos.


Me despedi da minha calça como quem perde a esperança. Como quem não tem mais alma para vestir. Perdi meu green velvet, meu luxo inglês costurado por mãos bolivianas e vendido a preço de banana. Perdi minha alma barata. Confeccionada ao som do programa Vozes Latinas, o batidão preferido dos porões do Brás e do Bom Retiro, sintonizado via rádio de pilha chinês. Perdi minha alma multiracial, um retalho da cidade de São Paulo composto por duas pernas sem pés.



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