terça-feira, 9 de dezembro de 2014

do céu, versão menor

Chã. Pisoteada. Eram tantos pés sobre sua cabeça tronco e membros que não sabia mais onde terminava ou descambava. Seu corpo, doce lar de escarros, pontas de cigarro, merda emplastelada, mijo em litros. Mas era a única a ter do céu visão total e indivisível. O céu nunca se repetia. Doce lar de tocos de estrelas, asas e coisas passageiras, eram constantes sobre ele as nuvens; sobre ela, as solas. Intercaladas em um movimento contínuo de revelar / esconder as partes íntimas do firmamento. Dele, Chã era a versão menor, a pobre da família, espelho de água suja refletida em cristal austríaco. Ao vê-lo de maneira privilegiada, contentava-se em ter tantos pés sobre suas carnes. Disso, até se esquecia, com um sentimento de superioridade doído, causado por esse paralelismo espacial do qual era ao mesmo tempo vítima e imperatriz. 


Uma crise a abatia, devido à dureza de viver tamanha contradição. Escorrida, plana, asfáltica. Naquele dia, 11 de novembro, o sol arrastado do céu se exibia mais do que de costume. Gerava incômodos a ponto de criar rebeliões entre as nuvens, que rapidamente se juntaram em um motim. Chã estava habituada a assistir às revoluções tão comuns nesse terreno aéreo de egos e disputas por visibilidade e espaço. O contraponto para o estrelismo do astro rei foi condensado em ajuntamentos nebulosos munidos de tambores soturnos, trombetas ensurdecedoras, maquinetas de gerar raios mortíferos. A noite avançou sobre o dia em um excesso de massas acaloradas. Correria, estrondos, gritos guturais, debandadas de pássaros ocultaram o sol. As estruturas do céu foram abaladas, fissuras foram criadas, houve rebuliço, movimentação, águas desabaram, ventos arremeteram. 

Pra ela sempre sobrava. Lascas de céu tombariam cairiam sobre sua cabeça, tronco e membros. Chã estava preparada para receber a parte que lhe cabia, essa era a única maneira de ambos passarem do contato exclusivamente visual para o físico. Céu desabou sobre Chã. Ao gozar, ambos estremeceram.

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